São 336 municípios do Rio Grande do Sul em estado de calamidade, provocando uma tragédia que já somava 83 mortos, 105 desaparecidos e 175 feridos, até esta segunda-feira, 6/5. Em dez dias choveu no Rio Grande do Sul cerca de um quarto do esperado para um ano – entre 24 de abril e 4 de maio foram 420 mm de chuva, enquanto a média do Estado fica em torno de 1.500 anuais.

Quase um milhão de imóveis ficaram sem água e seis barragens, em várias regiões do Estado, estão em situação de emergência. A maior parte dos moradores das cidades atingidas, inclusive a capital Porto Alegre, teve que sair de suas casas, abrigando-se em locais públicos, casas de famílias e de amigos. Equipes de resgate, com aviões e helicópteros, voavam continuamente por várias regiões do Estado resgatando moradores isolados pelas águas. Drones eram utilizados para identificar locais e famílias que necessitam de socorro.

“Precisamos de um Plano Marshall* para recuperar o Estado”, declarou o governador do RS, Eduardo Leite. A situação ficou tão grave que motivou duas visitas ao Estado do presidente Luís Inácio Lula da Silva, a segunda das quais acompanhado por uma ampla comitiva de ministros e os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas, o vice-presidente do STF, Edson Fachin, e representantes das Forças Armadas.

IMPACTOS

“É um desastre que se colocaria, sem exagero, no rol de um grande terremoto”, disse ao Jornal da USP o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. “As enchentes afetam o Estado de formas tão abrangentes e intensas que é possível fazer essa comparação”, acrescenta.

A necessidade de reconstrução é praticamente total, porque todos os principais recursos de que o Estado e a população podem dispor foram comprometidos no seu todo ou em grande parte”, aponta Côrtes. A começar pela infraestrutura do transporte. Na sua visão, além da dificuldade de locomoção, evacuação dos locais e resgate de vítimas, a segurança alimentar e energética são dificuldades consequentes. Sem meios de levar comida e energia, a fome, a distribuição de combustível e a impossibilidade de recuperar a rede elétrica se tornam problemas também.

Para Côrtes, a saúde é mais um ponto preocupante de atenção. “Mesmo as cidades que não tiveram o fornecimento de água comprometido, mas que sofreram com alagamentos, podem ter contaminação das redes de distribuição de água. Infelizmente, isso pode ampliar as doenças de veiculação hídrica, como é o caso da hepatite e da leptospirose, por exemplo”. Não havia enchentes da grandeza da ocorrida na semana passada no Rio Grande do Sul desde 1941, que na época registrou picos de 4,76 metros. A da semana passada atingiu 5,31 metros.