O governo do presidente Donald Trump teria orientado procuradores federais em Miami a não avançarem em investigações criminais envolvendo Delcy Rodríguez, atual presidente interina da Venezuela, em meio à reaproximação diplomática entre Washington e Caracas. As informações foram divulgadas pela agência Associated Press.

Segundo a reportagem, autoridades atuais e ex-integrantes da segurança dos Estados Unidos afirmaram que integrantes do Departamento de Justiça receberam orientação para abandonar linhas de investigação relacionadas à líder venezuelana.

Apesar disso, não há confirmação de que Rodríguez tenha sido formalmente acusada ou que existisse uma denúncia prestes a ser apresentada. Um porta-voz do Departamento de Justiça afirmou que “nunca houve uma investigação contra ela para ser encerrada”.

Documentos da agência antidrogas dos EUA apontam que o nome de Delcy Rodríguez apareceu em relatórios desde pelo menos 2018. Os registros citados pela Associated Press indicam suspeitas relacionadas a tráfico de drogas, contrabando de ouro e lavagem de dinheiro.

Um dos relatos mencionados afirma que, em 2021, um informante confidencial teria dito que hotéis localizados na ilha de Margarita, no Caribe, eram utilizados como fachada para lavagem de dinheiro.

As apurações também teriam relação com investigações ligadas ao empresário Alex Saab, aliado de Nicolás Maduro e preso em 2020 sob acusações de lavagem de dinheiro.

De acordo com a reportagem, a decisão de reduzir o escrutínio sobre Rodríguez teria como objetivo evitar tensões diplomáticas e facilitar negociações entre os dois países. O governo americano também buscaria abrir espaço para investimentos e negócios ligados ao setor petrolífero venezuelano.

Em março, Trump chegou a elogiar a atuação da líder venezuelana, destacando avanços nas relações entre os países e no setor de petróleo.

Ex-chefe de posto da CIA em Caracas, Rick de la Torre afirmou que a postura faz parte da estratégia dos Estados Unidos para a Venezuela, mas avaliou que a situação pode mudar futuramente.

A medida também gerou críticas de ex-integrantes do Ministério Público americano, que alertaram para o risco de uso político do sistema de Justiça em decisões diplomáticas.

Nos últimos meses, os Estados Unidos suspenderam sanções contra Delcy Rodríguez e passaram a reconhecê-la como única chefe de Estado venezuelana. A mudança permitiu a retomada de relações com bancos ocidentais e negociações com investidores americanos.

A reaproximação incluiu reuniões entre representantes do governo venezuelano e executivos do setor de energia dos Estados Unidos para discutir o aumento da produção de petróleo na Venezuela.

Democratas no Congresso americano também cobraram explicações do governo Trump sobre o tratamento dado à líder venezuelana. A senadora Jeanne Shaheen afirmou que Rodríguez é uma “figura central” no regime de Nicolás Maduro.