O reconhecimento da cidadania italiana do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de seus irmãos, Carlos e Eduardo Bolsonaro, foi debatido nesta sexta-feira (6) no Parlamento italiano. Durante a sessão, o governo confirmou que o processo foi concluído em apenas 58 dias após a apresentação da documentação na Embaixada da Itália em Brasília.

A cidadania foi reconhecida em 5 de janeiro de 2023, três dias antes dos atos golpistas de 8 de janeiro e poucos dias após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O prazo chama atenção por contrastar com a espera enfrentada por brasileiros que solicitavam o reconhecimento da cidadania italiana, que chegava a aproximadamente dez anos antes das mudanças na legislação, em 2025.

O governo italiano, no entanto, negou qualquer irregularidade e afirmou que o procedimento seguiu as normas vigentes na época.

O debate foi provocado pelo deputado de oposição Angelo Bonelli, da Aliança Verde e de Esquerda, que pediu esclarecimentos sobre a rapidez do processo e a possibilidade de os irmãos terem recebido tratamento privilegiado.

Em resposta, a subsecretária do Ministério das Relações com o Parlamento, Matilde Siracusano, explicou que Eduardo Bolsonaro foi o primeiro a solicitar inclusão na lista de espera da embaixada, em 2020. Flávio e Carlos fizeram solicitações semelhantes quase um ano depois, e os três processos foram analisados conjuntamente.

Segundo Siracusano, em 20 de outubro de 2021, Eduardo entrou em contato com o consulado para obter informações sobre o andamento do pedido. Em 8 de novembro de 2022, os irmãos foram autorizados a apresentar a documentação necessária para o reconhecimento da cidadania.

A família tem ascendência italiana por meio de um antepassado que emigrou da região do Vêneto para o Brasil no século XIX.

A subsecretária afirmou que a documentação apresentada estava completa e de acordo com as exigências legais da época. O reconhecimento foi oficializado em 5 de janeiro de 2023.

Flávio foi o primeiro dos irmãos a obter o passaporte italiano, em 8 de novembro de 2023. Eduardo e Carlos receberam os documentos entre abril e junho de 2024.

Após a resposta do governo, Bonelli afirmou que o prazo evidencia a existência de um procedimento acelerado e defendeu uma investigação para apurar se houve interferência política ou recomendação de integrantes do governo italiano.

O parlamentar também anunciou que pretende apresentar uma denúncia à Justiça italiana para verificar possíveis pressões políticas e tratamento preferencial. Ele mencionou a proximidade entre o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini e a família Bolsonaro.

Salvini é apontado como um dos principais aliados políticos da família Bolsonaro na Itália. Em 2025, Flávio participou de um evento do partido Liga, liderado pelo vice-premiê. Após o resultado do primeiro turno das eleições, Salvini manifestou apoio ao senador e o chamou de amigo.

O uso do passaporte italiano por Flávio Bolsonaro para deixar o Brasil e entrar na Argentina também ganhou repercussão na imprensa italiana. O documento foi utilizado ainda pela ex-deputada Carla Zambelli, que deixou o Brasil e foi para a Itália após condenação pela Justiça brasileira.

O episódio ocorre em meio ao debate na Itália sobre as regras de concessão de cidadania a descendentes de italianos nascidos no exterior, após mudanças legislativas que restringiram o acesso ao reconhecimento da nacionalidade.