UM FORTE CHEIRO DE ENXOFRE NO AR

“O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe.” — Baudelaire

Há um nítido conteúdo político no novo tarifaço de Trump e de seu “gusano rubio”. Como demonstram as exigências absurdas e descabidas dos norte-americanos nas negociações que antecederam a adoção da medida, revela-se o grau de beligerância, intervencionismo rasteiro e postura dominadora de Trump, que só serve para alimentar o projeto político da extrema direita e o instinto entreguista e traidor dos bolsonaristas.

O poder absoluto dos Estados Unidos, adquirido ao fim da Guerra Fria, após a queda do Muro de Berlim — período que marcou o auge do neoliberalismo e sua hegemonia até o fim da primeira década dos anos 2000 — se esgotou e já não prevalece sequer entre as principais potências do mundo ocidental.

Com a crise do neoliberalismo e a ascensão dos emergentes asiáticos e árabes, somadas à América Latina de Lula, Chávez, Correa, Evo Morales, Mujica, Kirchner e López Obrador, consolidou-se um modelo desenvolvimentista, popular e soberano. Esse movimento fortaleceu a articulação em torno do Mercosul, no campo econômico, e da UNASUL, no campo político-diplomático, rejeitando a proposta da ALCA, concebida como um instrumento de ampliação da hegemonia norte-americana sobre os demais países do continente

A volta de Trump ao governo norte-americano reacendeu o reacionarismo em um contexto de crescimento da extrema direita no mundo e de um cenário internacional marcado por tensões e guerras, que alimentam uma indústria armamentista americana cada vez mais sofisticada e letal. Nessa estratégia de diplomacia baseada em guerra, chantagem e intimidação, os Estados Unidos pressionam Brasil, México e Panamá por sua importância política e posição geopolítica estratégica; manipulam a Venezuela, após enfraquecê-la, e continuam asfixiando a resistente Cuba, numa tentativa de reeditar a Doutrina Monroe sobre a América.

Nessa sanha dominadora, respaldaram forças da extrema direita em eleições pelo continente, da Argentina ao Equador, do Chile ao Peru e à Colômbia. E, evidentemente, não permanecerão como meros espectadores nas eleições presidenciais brasileiras.

Mantemo-nos resistentes, pois a democracia e a soberania nacional são questões centrais nessa disputa e, para nós, inegociáveis. Da mesma forma, não abrimos mão da defesa dos mais pobres e da capacidade de, enquanto coalizão de centro-esquerda, impulsionar o desenvolvimento por meio de um Estado democrático, indutor e propositivo, capaz de dialogar amplamente com o setor produtivo, com o mundo do trabalho e de estabelecer sólidas parcerias internacionais, especialmente nas relações Sul-Sul.

Nosso lastro político está na formação de amplas coalizões, reunindo forças democráticas, liberais, nacionalistas, sociais-democratas e de esquerda, mobilizando os diversos setores da sociedade brasileira em defesa da democracia e de um país soberano. Esse legado social, econômico, tecnológico e de programas públicos constitui um poderoso movimento nacionalista e popular capaz de enfrentar as manobras da extrema direita e de seu principal aliado internacional, Donald Trump.

Diferentemente de 2002, nesta eleição os palanques estaduais de apoio a Lula apresentam-se mais amplos e consistentes nos grandes colégios eleitorais do Sul e Sudeste, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Espírito Santo, mantendo perfil semelhante em Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo, com reforço nas disputas ao Senado.

O Nordeste continua sendo a retaguarda estratégica das vitórias presidenciais do PT, em razão das amplas margens obtidas por Lula na Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão e Pernambuco, cenário que, em princípio, tende a se repetir, desde que os palanques estaduais não enfrentem crises internas em estados onde há mais de uma candidatura alinhada ao campo governista, como Maranhão e Pernambuco.

A questão central será mensurar o nível e o impacto de uma eventual intervenção dos Estados Unidos e de seus diversos instrumentos de influência — CIA, Big Techs, FBI, Departamento de Estado, entre outros —, bem como a intensidade da guerra híbrida, da disseminação de notícias falsas e da participação das elites econômicas e da mídia oligopolizada na tentativa de interferir no processo eleitoral brasileiro, em favor dos interesses estratégicos norte-americanos e de sua lógica de influência sobre a América do Sul, onde Brasil e Uruguai permanecem entre os poucos países governados por forças políticas fora da órbita de Trump e de sua visão geopolítica.

Será, portanto, uma eleição conturbada diante da possibilidade de pressões externas que busquem influenciar seu curso. Caberá ao povo brasileiro, por meio do voto, reafirmar seu compromisso com a democracia e com a soberania nacional.

JONAS PAULO
Ex-presidente do PT-BA