O cenário de incerteza no Estreito de Ormuz tem gerado impactos diretos no agronegócio brasileiro, que utiliza a região como rota estratégica para exportações ao Oriente Médio e à China. O “abre e fecha” da via marítima tem dificultado o planejamento das empresas, além de encarecer o transporte com a adoção de uma chamada “taxa de guerra” por operadores logísticos.

Apesar de o Irã ter anunciado a liberação da passagem durante a trégua com os Estados Unidos, a decisão foi revertida no sábado (18). Neste domingo (19), o estreito permanece fechado, ampliando a instabilidade no comércio internacional.

Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, sendo US$ 12,4 bilhões destinados ao Oriente Médio — cerca de 7,4% do total. A continuidade das restrições preocupa o setor. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o principal impacto está no aumento dos custos e na dificuldade de manter os volumes de exportação.

Para contornar o bloqueio, cargas têm sido desviadas por rotas alternativas, como o Mar Vermelho, o Canal de Suez e o Estreito de Bab el-Mandeb, regiões consideradas de alto risco. Outra opção tem sido o desvio pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que aumenta significativamente o tempo e o custo das viagens.

O Oriente Médio é um mercado importante para produtos brasileiros como carne de frango e milho, com destaque para países como Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Especialistas apontam que, apesar das dificuldades, a demanda desses países deve manter o fluxo comercial, ainda que com maiores custos.

No entanto, o principal ponto de preocupação está nos insumos agrícolas. O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo e depende fortemente do Estreito de Ormuz para o recebimento desses produtos. Pela rota passam cerca de 40% das exportações globais de ureia, 30% de amônia, 24% de fosfatos e 50% de enxofre — itens essenciais para a produção agrícola.

A instabilidade na região gera incertezas para a próxima safra, já que o fornecimento desses insumos pode ser comprometido. Isso pode impactar diretamente os custos de produção e, consequentemente, pressionar os preços dos alimentos no país no segundo semestre.

Empresas brasileiras já sentem os efeitos. A BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, informou que o tempo médio de entrega para a região aumentou de 40 para mais de 60 dias, além de registrar alta nos custos de frete, armazenamento e logística terrestre.

Diante desse cenário, o setor acompanha com preocupação os desdobramentos no Estreito de Ormuz, considerado um dos principais pontos estratégicos do comércio global.