Tarifaço de Trump e a disputa pela soberania brasileira Redação 24 de julho de 2026 Artigo, Notícias, ultimas notícias, ÚLTIMAS NOTÍCIAS UM FORTE CHEIRO DE ENXOFRE NO AR“O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe.” — BaudelaireHá um nítido conteúdo político no novo tarifaço de Trump e de seu “gusano rubio”. Como demonstram as exigências absurdas e descabidas dos norte-americanos nas negociações que antecederam a adoção da medida, revela-se o grau de beligerância, intervencionismo rasteiro e postura dominadora de Trump, que só serve para alimentar o projeto político da extrema direita e o instinto entreguista e traidor dos bolsonaristas.O poder absoluto dos Estados Unidos, adquirido ao fim da Guerra Fria, após a queda do Muro de Berlim — período que marcou o auge do neoliberalismo e sua hegemonia até o fim da primeira década dos anos 2000 — se esgotou e já não prevalece sequer entre as principais potências do mundo ocidental.Com a crise do neoliberalismo e a ascensão dos emergentes asiáticos e árabes, somadas à América Latina de Lula, Chávez, Correa, Evo Morales, Mujica, Kirchner e López Obrador, consolidou-se um modelo desenvolvimentista, popular e soberano. Esse movimento fortaleceu a articulação em torno do Mercosul, no campo econômico, e da UNASUL, no campo político-diplomático, rejeitando a proposta da ALCA, concebida como um instrumento de ampliação da hegemonia norte-americana sobre os demais países do continenteA volta de Trump ao governo norte-americano reacendeu o reacionarismo em um contexto de crescimento da extrema direita no mundo e de um cenário internacional marcado por tensões e guerras, que alimentam uma indústria armamentista americana cada vez mais sofisticada e letal. Nessa estratégia de diplomacia baseada em guerra, chantagem e intimidação, os Estados Unidos pressionam Brasil, México e Panamá por sua importância política e posição geopolítica estratégica; manipulam a Venezuela, após enfraquecê-la, e continuam asfixiando a resistente Cuba, numa tentativa de reeditar a Doutrina Monroe sobre a América.Nessa sanha dominadora, respaldaram forças da extrema direita em eleições pelo continente, da Argentina ao Equador, do Chile ao Peru e à Colômbia. E, evidentemente, não permanecerão como meros espectadores nas eleições presidenciais brasileiras.Mantemo-nos resistentes, pois a democracia e a soberania nacional são questões centrais nessa disputa e, para nós, inegociáveis. Da mesma forma, não abrimos mão da defesa dos mais pobres e da capacidade de, enquanto coalizão de centro-esquerda, impulsionar o desenvolvimento por meio de um Estado democrático, indutor e propositivo, capaz de dialogar amplamente com o setor produtivo, com o mundo do trabalho e de estabelecer sólidas parcerias internacionais, especialmente nas relações Sul-Sul.Nosso lastro político está na formação de amplas coalizões, reunindo forças democráticas, liberais, nacionalistas, sociais-democratas e de esquerda, mobilizando os diversos setores da sociedade brasileira em defesa da democracia e de um país soberano. Esse legado social, econômico, tecnológico e de programas públicos constitui um poderoso movimento nacionalista e popular capaz de enfrentar as manobras da extrema direita e de seu principal aliado internacional, Donald Trump.Diferentemente de 2002, nesta eleição os palanques estaduais de apoio a Lula apresentam-se mais amplos e consistentes nos grandes colégios eleitorais do Sul e Sudeste, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Espírito Santo, mantendo perfil semelhante em Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo, com reforço nas disputas ao Senado.O Nordeste continua sendo a retaguarda estratégica das vitórias presidenciais do PT, em razão das amplas margens obtidas por Lula na Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão e Pernambuco, cenário que, em princípio, tende a se repetir, desde que os palanques estaduais não enfrentem crises internas em estados onde há mais de uma candidatura alinhada ao campo governista, como Maranhão e Pernambuco.A questão central será mensurar o nível e o impacto de uma eventual intervenção dos Estados Unidos e de seus diversos instrumentos de influência — CIA, Big Techs, FBI, Departamento de Estado, entre outros —, bem como a intensidade da guerra híbrida, da disseminação de notícias falsas e da participação das elites econômicas e da mídia oligopolizada na tentativa de interferir no processo eleitoral brasileiro, em favor dos interesses estratégicos norte-americanos e de sua lógica de influência sobre a América do Sul, onde Brasil e Uruguai permanecem entre os poucos países governados por forças políticas fora da órbita de Trump e de sua visão geopolítica.Será, portanto, uma eleição conturbada diante da possibilidade de pressões externas que busquem influenciar seu curso. Caberá ao povo brasileiro, por meio do voto, reafirmar seu compromisso com a democracia e com a soberania nacional.JONAS PAULOEx-presidente do PT-BA